Guaraná em pó ralado do bastão

“Toda saudade é uma espécie de velhice” Riobaldo, personagem de Grandes Sertões Veredas, de Guimarães Rosa

Costume da família Monteiro é tomar guaraná em pó de manhã cedo, em jejum usa-se um copo daquele pequenos que se toma pinga no bolicho. Adiciona-se açúcar até pouco mais da primeira marca e em seguida uma colher de café de guaraná.

A água bem gelada vai sendo adicionado aos poucos. Coloca-se um pouco de água e mexe a pasta que se forma, depois mais um pouco de água e torna a mexer. “Sete águas e três goles” como dizia meu avô.

Guaraná bom é o ralado na grossa com bastão. Em uma tábua de madeira, coloca-se uma folha de papel e encaixa-se a grosa. Não é lima, é grosa. O bastão de guaraná é ralado em uma única direção, de ponta para frente, senão o pó queima e o gosto fica amargo. O excesso que fica sobre a grosa é retirado com uma escova de dentes imitando um pincel.

Gostava de olhar meu avô ralar guaraná na grosa. Cada detalhe feito com cuidado e atenção. Criança não podia ficar muito em cima, nem mexer nas coisas, pois “quem não atrapalha ajuda grande” ele dizia. Mesmo assim, ficávamos lá, ouvindo o som repetido do agudo do esfregar do bastão na grosa. O pó do guaraná ia enchendo o papel, que depois era dobrado ao meio para que o pó escorregasse até o pote de vidro, onde ficava guardado até ser consumido.

Já não se rala mais pau de guaraná em casa, hoje em dia compra-se pronto já ralado no Mercadão. Guaraná bom tem que ser do Mercadão ou de bolichos, com o pote empoeirado. Não tente comprar em farmácia ou  loja fitness que não é a mesma coisa, ele espuma, e não dá para fazer com sete águas. O gosto também é diferente, acho que não ralam o pau numa única direção.

Meus avós maternos, Donato Gomes Monteiro e Olívia Rodrigues Monteiro eram pantaneiros, moraram grande parte das suas vidas nas terras alagadas do Pantanal Mato Grossense. Lá nasceram minha mãe e seus irmãos e irmãs.

Apesar de distantes, Corumbá, no Mato Grosso do Sul, e Cuiabá, no Mato Grosso, têm muita coisa em comum. O Pantanal que abrange as duas cidades, o gado, a capivara, o peixe, o tucano. O jeito de falar, a cerveja gelada e a pele morena. O calor na sombra: “-tá quente hoje”, “-ainda bem que não tem mosquito”.

Certa vez em uma conferência em Campo Grande-MS um velho, ao perceber meu jeito de falar “dox” e “trêx” me perguntou se eu era de Corumbá. Eu disse que sim e iniciamos uma boa conversa.

Gosto de conversar com os velhos, há sempre algo a aprender. Quero um dia poder ensinar pelo exemplo de vida como dos velhos com quem convivi e contribuíram para formar meu caráter.

Uso a palavra “velho” em vez de “idoso”, o que seria mais politicamente correto, para me lembrar da poesia de Rubem Alves “a palavra idoso é boba. Não se presta à poesia. ‘Idoso’ é palavra que a gente encontra em guichês de supermercado e banco: fila dos idosos, atendimento preferencial. Recuso-me a ser definido por supermercados e bancos. ‘Velho’, ao contrário, é palavra poética, literária.”

O velho me perguntou se, por ser de Corumbá, eu era tomador de guaraná. Disse que sim e meus olhos brilharam, pois há tempos não via alguém dizer que tomava guaraná em pó de manhã cedo. Ele me disse algo que me chamou a atenção.

Disse que o guaraná em pó foi levado de Cuiabá para Corumbá por um homem chamado Dilermando Gomes Monteiro, que seria oficial graduado do exercito brasileiro. Lembrei que por tempos ouvi muito meu avô falar com orgulho sobre esse homem, como sendo seu parente.

Não fui atrás para confirmar essa história. Mas seria o guaraná em pó o elo entre Corumbá e Cuiabá? Tal qual Manoel de Barros, eterno poeta pantaneiro?

Dona Dindinha, cuiabana, aos seus 107 anos atribuía sua longevidade ao guaraná em pó tomado todos os dias de manhã cedo.

Hoje, mesmo tão longe das terras pantaneiras, ainda mantemos em casa o costume do guaraná em pó. A Inez, que é de Campo Grande, também pegou o hábito e as crianças às vezes tomam de colherzinha, mas não gostam muito, talvez por não terem visto o guaraná sendo ralado na grosa.

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