A arte francesa de mandar tudo à merda- Fabrice Midal

Depois que pedi exoneração do meu cargo no Fórum de Campo Grande, sempre tive dificuldade para dizer qual era minha profissão, quando fazia faculdade e depois estudando para concursos dizia que era estudante, depois que tive as crianças e ficava somente em casa cuidando delas e dos afazeres domésticos inventava algo só para não dizer que não estava trabalhando para fora, sentia que não trabalhar era um grande peso para mim, apesar de André não cobrar que trabalhasse eu sempre me cobrei muito. Com o tempo consegui tirar esse peso das minhas costas, hoje quando me perguntam já consigo dizer que sou mãe e dona de casa que gosta de se aventurar na escrita, e estou feliz assim.

E é sobre essas cobranças que nós nos fazemos que Fabrice fala em seu livro, segundo ele:

“Somos condicionados a estar sempre fazendo. Somos antes de tudo criaturas relacionais, mas na vida cortamos relações, nos isolamos, esquecemos esse ato generoso que consiste em não procurar sempre explicar, compreender, justificar e criticar. ”

Temos a tendência de querer nos encaixar, participar de um grupo, pensar igual a eles e esquecemos que não há problema pensarmos diferente, ao contrário precisamos ter nossos próprios pensamentos, sermos livres para sermos e fazermos o que quisermos, não precisamos sempre tomar partido, ser a favor ou contra algo, às vezes não queremos opinar, e está tudo bem. Não tem problema ter uma opinião diferente, não precisamos tentar agradar a todo mundo o tempo todo, para o autor:

“Obedecer costuma ser a solução fácil e uma garantia de prudência, uma vez que não nos afastamos do caminho traçado por outros. Eles obedecem porque não querem assumir riscos nem ter aborrecimentos. Obedecer sem discutir, sem compreender por que, até mesmo sem estar de acordo, acaba por nos sufocar, nos apagar, impede a inteligência que carregamos em nós de eclodir. Temos vontade de dizer não, mas alguma coisa nos retém.”

“Fazemos parte de pequenos grupos que desenvolveram uma cultura própria, a cultura do  grupo prevalece, uma norma se impõe, somos forçados a entrar nesse molde em que compartilhamos a mesma vivencia, sob pena de ficar por fora.“

Fabrice é um grande especialista em meditação e ele faz uma crítica a quem começa a meditar com o intuito de relaxar, já que para ele meditar é entrar em relação com a sua própria vida. Quando comecei a meditar ao invés de relaxar ficava ansiosa, pois não conseguia me desconectar, não pensar, relaxar. Com um tempo percebi que a meditação tinha que ser algo natural, a partir daí medito quando sinto vontade, me permito não fazer todos os dias e vejo que quando o faço de coração aberto, consigo me conectar comigo mesma e o relaxamento vem naturalmente.

Deixar-se em paz é o grande conselho do autor:

“Quando me deixo em paz, sou necessariamente mais tolerante com todas as agressões, não as percebo mais como agressões, mas como ondas e, para além dessas ondas, o que vejo é o oceano. A paz não decorre de um controle absoluto do que somos, mas de uma transmutação das contingencias da realidade. ”

Muitas vezes procuramos uma perfeição que não existe, nesse mundo conectado onde há disputa por curtidas e seguidores, queremos ser perfeitos para passar uma imagem neutra de nós mesmos, idealizamos um sucesso e felicidade que não existe. Quando olhamos para nós com mais gentileza, descobrimos que somos felizes e temos o sucesso dentro de nós mesmos, não precisamos procurar no outro.

“Não seja perfeito, seja ambicioso! Aceite as falhas, as lacunas, as imperfeições… mas faça o seu melhor, a partir do que você é, a partir da realidade que você tem diante de si. Não se isole de você mesmo, não se isole da vida.” Aconselha o autor.

Ano passado quando mudamos para Brasília e viemos morar no apartamento, foi muito difícil para mim deixar Davi e Luana descerem sozinhos para brincar no parquinho do prédio. A primeira vez que isso aconteceu fiquei cuidando-os da janela do meu apartamento. Só fiquei tranquila quando os vi lá embaixo e de cinco em cinco minutos olhava para ver se ainda estavam lá, quando não os via descia e somente constatava que continuavam brincando e só tinham saído do meu campo de visão.

Vejo o quanto muitas vezes eu fico aflita por algo que sequer poderá um dia vir a acontecer, por medo de confiar. Confiar que vai ficar tudo bem, que tudo vai dar certo, simplesmente confiar. Por conta disso me preocupo demais, carrego pesos desnecessários, para Fabrice:

“Se tememos tanta dificuldade para nos deixar em paz, é justamente porque tememos confiar em nós. Deixar-se em paz para descobrir a arte de amar. Querer ser perfeito, querer ser calmo, querer se comparar são maneiras de não confiar. ”

“Deixar-se em paz é este gesto: voltar para casa. Você não precisa ir longe para procurar a paz, a felicidade elas estão aqui mesmo. ”

Dar um tempo para si mesmo, sem muitas cobranças internas e externas, e aprender a viver o aqui e agora, sem nos torturarmos e obrigarmos tanto, procurando sim ser o que somos, confiando mais em nós mesmos, aí que mora a paz de espírito.

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