Paisagem na janela

Outro dia ao caminhar no parque, não consegui perceber nada do que acontecia ao meu redor, mal comecei e já tinha encerrado o percurso que sempre faço, quando dei por mim já estava no carro indo para casa. Não vi o céu azul, as flores, os pássaros, as pessoas, enfim nada, só meu corpo estava caminhando, minha mente estava longe.

Quando vou caminhar feliz e com o coração cheio de gratidão, além de estar sorrindo com os lábios, sorrio com os olhos também. Vejo o quanto o céu de Brasília é lindo, as árvores estão bem verdes por causa das chuvas, e vejo as pessoas, de vários tipos, sozinhas, acompanhadas de amigos, casais, namorados, cachorros ou bebês, mas que sorriem ao me ver sorrindo, várias pessoas me cumprimentam com um oi, com um sorriso ou com um aceno de mão.

Quantas vezes estamos com uma venda nos olhos que não nos permite ver nada e que nos cega para os acontecimentos que estão a nossa volta. Deixamos nos levar por nossos sentimentos, nosso estado de espírito temporário, que não nos permite ver a beleza das coisas e das pessoas.

Quanto perdemos por estarmos nervosos, irritados ou preocupados demais a ponto de não vermos as coisas como elas realmente são. As belas paisagens pela janela do carro que passam sem serem percebidas. As amizades que não são feitas por falta de um simples oi. Um sorriso que perdemos de ver por sequer olharmos para as pessoas.

As perdas, só as percebemos quando já se foram, pois quando estamos no olho do furacão não conseguimos pensar em nada, os momentos vão passando, vão se perdendo e quando percebemos já é tarde demais, não tem como voltar.

Quantas vezes já disseram para você, como está metido, passei por você e nem me cumprimentou, mas seus pensamentos estavam tão longe que não conseguiu ver além de seus próprios pés.

Quantas vezes ao fazer o mesmo caminho percebeu que tal coisa estava ali, que sempre esteve ali, mas que nunca tinha visto.

Nós gostamos muito de viajar de carro, fazíamos várias vezes ao ano o percurso de 420km de Campo Grande-MS a Corumbá-MS, já vivi os dois momentos durante o percurso. Já vi pássaros, animais na pista, as fazendas ao longe, os morros, o ninho do tuiuiú, o rio Paraguai, conversava, ria, curtia a viagem. E também em outros momentos não via nada, quando menos percebia já estava em Corumbá, ficava o tempo todo olhando para o relógio, desejando que o tempo passasse rapidamente e chegássemos logo, é obvio que quando isso acontecia chegava toda dolorida, com os ombros pesados.

Conscientes ou não, decidimos como vai ser, se vamos ou não aproveitar a paisagem na janela.

Respire fundo e simplesmente sinta, quanta coisa perdemos por falta de presença. Quantos sorrisos, olhares, carinhos perdemos por não conseguirmos ver o que está a nossa frente. Que esse ano que está apenas começando, possamos aproveitar mais os pequenos momentos de nossa vida!