Vida corrida

A vida corrida quer me pegar.

Não posso deixar que ela me pegue.

Ela pega e não larga.

Vida corrida quer tudo só para ela, não deixa nada para osoutros.

Vida corrida quer controlar até pensamentos, humor e pôr-do-sol.

Ela quer dizer o que você tem que comer e não liga para exercícios.

Vida corrida quer tudo, quer bagunçar o coreto! Mas ela não sabe que tenho um plano.

Vida corrida não gosta de água de rio, corixo, costelade  pacu, cigarra e jogar conversa fora.

Vai vida corrida, vai marcando para ver se não te troco por mato.

Brasília – um novo olhar para uma nova vida

Quando mudei para Brasília em 2007, foi difícil minha adaptação. Sou natural de Campo Grande-MS e sempre morei lá, na mesma casa, e mudar de cidade foi uma grande mudança em minha vida.

O dia foi 10 de fevereiro de 2007, uma semana após meu casamento eu deixava a casa de meus pais pela primeira vez e estava indo viver minha vida de casada a mais de mil quilômetros de distância. Além disso, pedi exoneração do meu cargo e transferi meu curso de direito para cá, vim fazer o  último ano em outra faculdade.

Apesar de estar muito feliz por ter casado com o homem que eu amo e viver ao lado dele era tudo que sempre sonhei, eu não estava completamente feliz. Foi muita mudança para mim, eu que sempre vivi no mesmo lugar durante 26 anos, não conhecia muitas cidades além da minha cidade morena, me vi em uma cidade grande, completamente diferente do que estava acostumada.

Meu primeiro semestre aqui não foi dos melhores, eu na tentativa de me adaptar a tudo, André viaja a trabalho e fica um mês fora de casa, fiquei só no apartamento, ainda bem que havia nossos amigos Ricardo, Valéria e Gabrielle para evitar que eu ficasse tão sozinha.

Após me formar, estudei alguns meses para concursos, mas aí veio a remoção do André para Campo Grande no final de 2008 e eu finalmente iria voltar para minha cidade. Ficamos 9 anos lá, tivemos nossos filhos, estávamos perto da nossa família e amigos. Tínhamos uma vida tranquila. Mas depois que Mariana nasceu veio um desejo grande de mudar, não sabia se era necessariamente de cidade, queria fazer algo novo.

Quando foi em dezembro de 2017, André recebeu uma proposta de trabalho para Brasília. Nunca imaginei que um dia voltaria morar aqui. Quando ele me contou da proposta e me perguntou “e aí vamos?”, respondi sem pensar: “vamos!”. Depois de conversarmos rapidamente sobre os prós e contras, foi que após um hora dele ter recebido a proposta, já estava dando a resposta de aceite ao seu futuro chefe.

Foi aí que as mudanças aconteceram, começamos a vender alguns móveis, pois não iam caber em um apartamento. Procuramos apartamento e escola para as crianças, tudo pela internet e com a ajuda dos amigos. Estávamos naquela incerteza de como seria, como as crianças iriam se adaptar, misturado com uma imensa alegria e expectativa de mudança.

Eu e André não somos mais os mesmos de dez anos atrás, nossos pensamentos e estilo de vida são bem diferentes, e agora temos três crianças, que são nossa prioridade.

Os dois primeiros meses aqui foram de adaptação, André no trabalho, Davi e Luana na escola, eu e Mariana em casa.

Após um ano, vejo o quanto foi bom a mudança para os cinco. Davi e Luana estão adaptados, fizeram novos amigos no prédio e na escola, já se acostumaram com a rotina. André está bem no trabalho. Mariana vai para a escola esse ano. E eu estou muito feliz com a vida em Brasília.

No momento em que tudo dependia de mim, que tinha mais o que fazer em relação as crianças e a casa, foi quando me encontrei na leitura e na escrita. Sinto prazer em ler e escrever, me sinto útil, uma cabeça pensante. Vejo o quanto sou mais do que mãe e esposa, sou uma mulher que tem sonhos e desejos que são só meus, mas que não há problema nisso, que eu posso sim pensar em mim e isso não anula o meu imenso amor de mãe.

Hoje  consigo ver uma Brasília diferente, ou aliás como ela é e sempre foi, linda, onde conseguimos ver longe, sua imensidão, seu céu azul apaixonante, onde habitam pessoas de tudo quanto é lugar do Brasil e do mundo, que se encontram nas diferenças.

Quando estamos abertos a mudanças e permitimos que elas aconteçam em nossa vida, elas vêm repletas de ensinamentos e transformações que nos tornam mais fortes.

Só tenho que agradecer a Deus por ter nos dado a oportunidade de voltar para Brasília, para que com esse novo olhar eu pudesse ver sua beleza. Beleza dessa cidade que apesar de ter os defeitos e qualidades dos grandes centros urbanos, possui uma beleza sem igual.

Sinto saudades da família, dos amigos e da minha cidade Morena, minha Campo Grande, mas ainda bem que existe a internet para amenizar um pouco essa saudade.

Posso dizer que aqui é meu lar, lar da minha família, pois foi onde escolhemos estar, para sempre? Isso não sei dizer, por mais que ouça essa pergunta das crianças, não tenho essa resposta, o futuro a Deus pertence. Só sei que estamos felizes por morar aqui, peço a Deus que continue nos abençoando pelos caminhos que seguirmos.

Paisagem na janela

Outro dia ao caminhar no parque, não consegui perceber nada do que acontecia ao meu redor, mal comecei e já tinha encerrado o percurso que sempre faço, quando dei por mim já estava no carro indo para casa. Não vi o céu azul, as flores, os pássaros, as pessoas, enfim nada, só meu corpo estava caminhando, minha mente estava longe.

Quando vou caminhar feliz e com o coração cheio de gratidão, além de estar sorrindo com os lábios, sorrio com os olhos também. Vejo o quanto o céu de Brasília é lindo, as árvores estão bem verdes por causa das chuvas, e vejo as pessoas, de vários tipos, sozinhas, acompanhadas de amigos, casais, namorados, cachorros ou bebês, mas que sorriem ao me ver sorrindo, várias pessoas me cumprimentam com um oi, com um sorriso ou com um aceno de mão.

Quantas vezes estamos com uma venda nos olhos que não nos permite ver nada e que nos cega para os acontecimentos que estão a nossa volta. Deixamos nos levar por nossos sentimentos, nosso estado de espírito temporário, que não nos permite ver a beleza das coisas e das pessoas.

Quanto perdemos por estarmos nervosos, irritados ou preocupados demais a ponto de não vermos as coisas como elas realmente são. As belas paisagens pela janela do carro que passam sem serem percebidas. As amizades que não são feitas por falta de um simples oi. Um sorriso que perdemos de ver por sequer olharmos para as pessoas.

As perdas, só as percebemos quando já se foram, pois quando estamos no olho do furacão não conseguimos pensar em nada, os momentos vão passando, vão se perdendo e quando percebemos já é tarde demais, não tem como voltar.

Quantas vezes já disseram para você, como está metido, passei por você e nem me cumprimentou, mas seus pensamentos estavam tão longe que não conseguiu ver além de seus próprios pés.

Quantas vezes ao fazer o mesmo caminho percebeu que tal coisa estava ali, que sempre esteve ali, mas que nunca tinha visto.

Nós gostamos muito de viajar de carro, fazíamos várias vezes ao ano o percurso de 420km de Campo Grande-MS a Corumbá-MS, já vivi os dois momentos durante o percurso. Já vi pássaros, animais na pista, as fazendas ao longe, os morros, o ninho do tuiuiú, o rio Paraguai, conversava, ria, curtia a viagem. E também em outros momentos não via nada, quando menos percebia já estava em Corumbá, ficava o tempo todo olhando para o relógio, desejando que o tempo passasse rapidamente e chegássemos logo, é obvio que quando isso acontecia chegava toda dolorida, com os ombros pesados.

Conscientes ou não, decidimos como vai ser, se vamos ou não aproveitar a paisagem na janela.

Respire fundo e simplesmente sinta, quanta coisa perdemos por falta de presença. Quantos sorrisos, olhares, carinhos perdemos por não conseguirmos ver o que está a nossa frente. Que esse ano que está apenas começando, possamos aproveitar mais os pequenos momentos de nossa vida!

Quanto custa a preguiça?

Trabalho de preguiçoso é dobrado, já dizia meu avô. Ele repetia essa frase sempre que percebia que não estávamos fazendo nossas tarefas com dedicação. Ainda que tal tarefa fosse apenas buscar uma bola que caiu do outro lado da cerca. E era certo, se chutássemos a bola do outro lado direto para o campo, na preguiça de levá-la com as mãos, com certeza ela bateria em uma árvore e iria para mais longe.

E lá estava meu avô assistindo ao jogo na beira do campinho de terra do sítio da família para dizer: “trabalho de preguiçoso é dobrado”. Lembrar dessa frase hoje me faz refletir: quanto custa a preguiça em nossas vidas?

Quantos momentos deliciosos a preguiça já nos roubou? Estar com os filhos, ainda que cansado, e não querer montar aquele quebra cabeça que parece não ter fim, mesmo sabendo que ao fazer isso, tal momento ficará gravado na memória dos pequenos. Nem que seja para um dia eles se lembrarem dos pequenos momentos que nós passamos juntos e das coisas banais que tantas alegrias trouxeram.

Quantas caminhadas no campo a preguiça nos levou embora. Aquele passeio no parque adiado para não se sabe quando. Quantas vezes ela já nos privou de momentos alegres, músicas que poderiam ser tocadas, comidas a serem provadas, beijos a serem dados. “Um dia a gente vai…”

Quantos dias a preguiça nos subtraiu, aquele acordar cedo que não aconteceu. Aquela hora de ir na academia que o “hoje não, só mais um pouquinho” não permitiu que acontecesse. Aquele dia na igreja que não fomos por estar chovendo e poderíamos molhar os sapatos.

Quantos momentos pequenos, únicos, banais e felizes a preguiça já nos roubou e tem roubado? Momentos de brincar, sentir o cheiro da terra, abraçar as crianças, curtir os amigos, visitar um idoso ou doente, quantos pequenos grandes momentos ela nos leva.

E quantos sonhos a preguiça já subtraiu?

Abra seus olhos! calce seu tênis! aprenda o que deve ser aprendido! estude o que vem adiando! espalhe a caixa de brinquedos no chão! suje as suas roupas e as panelas da cozinha!

A preguiça não gosta de sujeira. Não gosta de olhos sujos de remela de quem acordou cedo, nem de pés sujos de quem correu descalço ou de roupas sujas de quem rolou no chão, muito menos da camisa molhada da água da cachoeira. A preguiça não gosta do cheiro de peixe que você trouxe da pescaria, nem do cheiro de cebola das mãos depois de preparar aquele jantar.

Ela também não gosta nem um pouco do cheiro de cocô nas mãos depois de trocar a fralda do bebê, ou do cheiro de vômito nas roupas por ter que carregá-lo.

A preguiça não gosta de mãos sujas de tinta guache, nem de contar estórias à noite para dormir. Ela não gosta de bunda quadrada das horas de estudo, do cheiro de suor da camiseta, nem de sentar no chão para brincar com os pequenos.

A preguiça não gosta do fim do dia, de dar banho nas crianças, ou de ouvir o que elas têm a dizer, por mais insignificantes que pareçam. Enfim, a preguiça não gosta daquilo que torna a vida mais gostosa.

Quanto custa a sua preguiça?